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Clave de dó

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E screvia como se tocasse nas teclas de um piano. Sorria como nunca, e como sempre, confirmando o sucesso de seus planos. Pode isso, seus planos errados dão certo - ao inverso – correto? As palavras são acordes, faz sinfonias, canções de amor, horror e pudor violado. Feito louco toca seu piano de letras nas noites em que não há sexo, drogas ou edições recentes de revistas pornôs. Calem essa maldita boca de merda! Esbraveja. Soca a parede e morde os lábios reprimindo dor e raiva. Retorce a garganta pigarreando, cospe na sola do seu sapato pardo e calcula meticulosamente a trajetória para acertar os malditos gatos que teimam em gemer no seu pátio sob a janela de seu quarto amarelo xixi. Senta na cama e leva as mãos à cabeça. Deixou mais um texto pelo meio pra cortar o cabelo. Disse: corte desordenado pra que assim seja o ajeitado. Bagunça na cabeça. Precisa de um abraço. Será que foi enganado por um amor de eternidade? Passado. Tira a roupa sem pressa, peça por peça, sol a pino e sente ...

Me conto. Tome com.

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Esqueci meu endereço. Esqueci. Meu endereço é onde você me encontra, e, você me encontra em quem me ama. Gosto do sorriso canoinha, tão simplesinho quanto sumo. Canoinha que navega nos mares da face sendo empurrada pelos ares de um disfarce tão convincente pra mim. Você é um disfarce. Eu não sei como você reage se eu morder seu braço, tampouco se há um pula-pula na sua sala e um coqueiro no quarto: você é surpresa. A parte que eu vejo é parte menor, objeto social relacional, digamos que instrumento para envolver e poder se deixar conhecer na medida exata. Cheiro. Ah! Como gosto do aroma que é bom, que é doce – mas não doce ao exalar, e sim por ser sensível, miúdo, levemente inebriante. O perfume, ou seu plural, deve ser sobre tudo uma espécie de “espião desastrado”: cauteloso pelo ar, tentando ser imperceptível, mas cometendo a conveniente e agradável gafe de se deixar perceber. Cores. Agrada-me o roxo, o vermelho, o preto, o branco, o róseo; o equilíbrio da cor com o indivíduo é...

Poética

De manhã escureço De dia tardo De tarde anoiteço De noite ardo. A oeste a morte Contra quem vivo Do sul cativo O este é meu norte. Outros que contem Passo por passo: Eu morro ontem Nasço amanhã Ando onde há espaço: – Meu tempo é quando. (Vinícius de Moraes)

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Maria pensa: Ah, deixa. Deixa o que Maria? Deixe que me esqueça. Maria, só amanhã.

Dos deuses

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"Existem dois deuses. O deus que nossos professores nos ensinaram, e o Deus que nos ensina. O deus sobre o qual as pessoas costumam conversar, e o Deus que conversa conosco. O deus que aprendemos a temer, e o Deus que nos fala de misericórdia. Existem dois deuses. O deus que está nas alturas,e o Deus que participa da nossa vida diária. O deus que nos cobra, e o Deus que perdoa nossas dívidas. O deus que ameaça com os castigos do inferno, e o Deus que nos mostra o melhor caminho. Existem dois deuses. Um deus que nos esmaga com nossas culpas, e um Deus que nos liberta com Seu amor." (“Maktub” - Paulo Coelho)

Deiny – vizinha de Anne

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É Deiny que chamo. Era o nome artístico de uma cantora brega que minha tia morena falsa era fã. Ficou esse, acho diferente, é... diferente sim. Como o nome, nunca fui a mais bonita, fui não. Não sei pra quem puxei. Eu era aquela que existia no meu cantinho permanente e receptivo da sala de aula, do escritório, da casa... Não era aquela que as outras garotas buscavam ser amigas, ou mesmo a que os garotos disputavam para estar na presença. Eu não era mulher de verdade, não, mulher tem presença. Minha professora havia dito que na época colonial as mulheres mais apessoadas e ricas tinham os dentes podres: açúcar era artigo de luxo. Usavam vestidos longos e com armações exageradas para que quando da necessidade pudessem agachar tanto quanto necessário e urinar, ou, defecar. Fiquei surpresa. Mas na minha vida não fazia diferença, pois não tenho dentes podres, e sou limpinha, agora a seleção social é macabra e impiedosa. O fato que perturba, é que nunca tive um menino pra namorar. O máximo...

Anne

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O diava quando ele me olhava daquele jeito. Eu sabia que coisa boa não viria, minha mãe tinha o hábito de dizer que as mulheres conseguem saber das coisas até mesmo pelo olhar daqueles que se manifestam, nunca contestei: ela sempre soube mais do que demonstrara. Agora, enquanto ele se põe nesse exercício de passar as mãos no rosto e desvia o olhar vazio da minha direção, eu sei, vai acontecer tudo de novo. Tudo aquilo que eu preferia que jamais acontecesse. Sei como vai ser, dirá que nós precisamos conversar, que só quer a minha felicidade e que sou especial; mas e daí? Afinal, não importa. Todo sol que invadir meu quarto vai mostrar que a meu lado, ninguém fizera companhia. E se fosse verdade tudo aquilo que eu bem sei que ele vai dizer, não precisaria curar a magoa só. A gente poderia concertar, poderia. Tudo bem, eu sei que fui implicante, ciumenta, sei que cobrei demais algumas vezes, mas... Ai, pronto ele vai falar! Pegou a minha mão com uma expressão de consolo, alisou-a ...