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Uma tal de Lúcia.

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A oportunidade perdida, volta jamais. As sensações vividas, repetem-se nunca. Travo com a idade uma batalha da qual certamente saio derrotada. Cada flanco é cicatriz sarada com a acidez da hora ida. “São marcas de expressão”, diziam; acenava positivamente com a cabeça enquanto tateava a pele que tanto mais se enrugava com qualquer manifestação de afeto ou rancor. Percebo que aos poucos fico mais próxima da terra, minha coluna se curva de tal forma que é como se saíssem braços do solo e me puxassem pela cabeça na sua direção, o que é, notadamente, uma cobardia com alguém que mal se mantém em pé. Passo o dia na varanda vendo o movimento dos automóveis, ônibus e caminhões abarrotados da pressa rotineira. Pisco os olhos lentamente e meu maior compromisso é não perder a hora do remédio ou a reza vespertina do terço na televisão. Se a noite foi conturbada deixo o sono me arrematar e durmo sentada ali mesmo. Algumas vezes vêem visitas tomar um chimarrão e conversar qualquer coisa. Gosto ...

Caio

O problema é que se escrevesse no papel, seria tomado pela preguiça ao transcrever para o computador. Ainda assim, vez ou outra me arremata um desejo de ver as letras se desenhando na matéria sólida e branca, isso quando não sou obrigado a fazê-lo. Ontem, por exemplo, foi num instante e tudo estava escuro, cegueira artificial e vou eu a caça de fósforos. Quando tudo já se apresentava mais calmo, lá foi a caneta dançar seu tango de narrativas marcadas guiada pelos meus dedos. Pus-me sob o cobertor usando somente uma camiseta, as velas criavam sombras vivas e trêmulas pelas paredes. Perdia a exatidão da linha reta e minha história vazava pelas margens. “Parei de contar dias da semana. As estações passam por mim, Importa-me pouco, Sinto cheiro, frio, As meias do sapato molham E suo do calor que faz na minha consciência. Escalo o pé de laranjeira Pra ver o mundo bem do alto. Faço todo dia (que amanheçe feriado). Se tropeçar, Eu Caio, Mas se sou Tadeu, Você não iria acreditar mesmo.”

Volúpia

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Meu corpo estremece e faz prece pra que me inunde de êxtase. Quero o prazer mais puro que houver e decido somente pelo espumante, pois do resto sou entregue. Estou ereto, meu sangue corre quente, minhas pupilas se dilatam e se outros vissem diriam que certamente me encontro abstinente de algum vício ilícito. Costure sua pele na minha, não saia sem avisar. Borde seu nome na minha nuca, deixe o riso na face. Durma com meu travesseiro de penas de ganso, mas não se ausente do meu lado. Fique com o ouro, os diamantes e a promessa da auréola, o que eu preciso é de você enrolando os lençóis amassados, abafando grunhidos e atirando peças de roupa pelos cantos de toda a casa.

Paisagens, pincéis e amores coloridos

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G osto desses tempos em que os Ipês se carregam de flores e deixam o chão colorido. Prefiro os amarelos, pois os rosados parecem falsos. Tenho cabelo verde, que mais parece um capacete de piloto automobilístico. Dizem que sou querido. Parece mentira, mas não brigo. Se há uma coisa que eu não sou é revoltado. Lembro que na escola sempre apanhava dos outros meninos, quieto voltava ao meu isolamento prático. Sou calmo, muito. Consegui levar sete meses pra terminar minha última tela, dava três pinceladas por dia e confesso que foi a pior que meus pincéis acariciaram para dar vida. Aprendi que se deve ter as experiências no devido espaço de tempo e deixo que elas aconteçam sem demasiados esforços ou metas definidas. Existem lá as exceções, mas odeio ser como as pessoas que fazem questão de expor as brechas de suas teorias com ares de soberba. Sou simples e diferente. Às vezes saio do trabalho, passo no supermercado e compro um saco daqueles salgadinhos que são capazes de mudar nosso DNA, ta...

Vai

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“A quatro mãos escrevemos este roteiro para o palco de meu tempo: o meu destino e eu. Nem sempre estamos afinados, nem sempre nos levamos a sério.” (Lya Luft) Eu me arrependo, casei cedo demais. Nem imagino o que os homens tenham que os tornem tão diferentes depois de assumir um compromisso, é como se houvesse uma necessidade de externar as más qualidades, antes inexistentes. O nome dele é Jair, você sabe. É importante lembrar que eu o amo, entretanto é aquele tipo de homem deprimente que chega em casa do trabalho, coloca um calção vermelho, uma camiseta velha e a partir daí seus maiores esforços consistem em ligar a televisão, indagar se o jantar está pronto e roncar até o amanhecer. Pavoroso. Ontem pedi que ele levasse o lixo pra rua, resmungou um pouco, jogou a sacola na lixeira com desdenho, mas levou. Senti-me vitoriosa. O maior problema é que esses meus excessos de coragem não são constantes, a forma como ele age associada ao estresse acumulado do dia me dei...

Faz calor, depois faz frio.

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T erminei com ele. Não dava mais. Acabou. Fui muito tola em perder todo esse tempo achando que a nossa história daria certo. Isto foi o que eu lhe disse quando me ligou pela manhã. Fim. E “felizes pra sempre” fica pra depois, depois do jogo em que o grêmio ganhar fora de casa. Não queria ser uma mosca nem um mosquitinho pra ver a cara que ele fez, fico em corpo feminino que está mais desejável. A curiosidade não é tanta, certo? Depois disso não consegui mais pensar ou comer algo direito, tive de ir correndo ao cartório fazer a venda de minha moto no intervalo do almoço. Quero investir um pouco mais no meu apartamento, contratar uma empregada, quitar as parcelas vencidas, comprar um colchão novo e alguns vinhos de boa safra. O rapaz foi engraçado, aquele que me atendeu. Tinha uma voz grave, bem sonante, e brincava enquanto fazia as perguntas do cadastro, fui simpática também, não se pode perder a chance de deixar boa impressão, além do mais hoje é sexta-feira e à noite vou sair pra ...

Sem grilos de mim

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N ão peça pra Ganhar aquilo que você nem sabe se Compraria. Viu Flor, não posso ir de encontro às vontades que bem gostariam de serem libertas. E se eu não for nada do que você imagina? Essas moçoilas que me elogiam não sabem o que dizem, nem sequer descobriram como usar os lábios quando postos ao calor do outro. E também, o que você pensa? Como vou saber o que se passa por detrás destas lentes novas, o que você tem visto por ai? O que tem incitado sua libido? Estive pensando, enquanto conversávamos de zodíaco: presente bom é aquele ideal, o que se encaixa no nosso molde consumista, que será usado até que o desgaste termine-o. Se não for assim é “lembrançinha”. Certo, também é interessante, a intenção é valorosa, mas chama-se assim pelo fato de ser algo permanentemente inútil, a menos que o desejo seja lembrar a pessoa que dera, ou, quando muito, do dia. Tudo na vida é assim, não é? Sua última paixão, por exemplo, foi uma lembrançinha, não um presente, senão estaria indo com você compr...