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Elisão

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Pensamentos pobres com retoques nobres. Profissão de esculpir atos lícitos e cenas pudicas. Exercício de acumular pedidos, promessas, Dores e visões do porvir. Cumpridos e compridos. No sótão enferrujam as algemas do meu sentir Guardo banhado de pó tudo que jaz repousando, Regado de ódio um tanto e outro, ainda amando. Amasso-me na cadeira e o suor salgado e quente Desvia do controle dos meus poros Escore e lava meu caráter visigodo. Enternecido, lanço mão de alguns truques mágicos Angariando ouro, prata e adeptos causais de precipícios. Sorrio maligno.

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"Escrever é a única profissão em que ninguém é considerado ridículo se não ganhar dinheiro." (Jules Renard)

Aracno

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Um tapete circular alaranjado, deitado com os braços sob a cabeça olhando para o alto. A pequena aranha sobe e desce acompanhando o movimento do meu diafragma que comprime e relaxa os pulmões. Quando alacançava uma altura suficiente despendia do alto com velocidade girando verticalmente na própria teia, parecia brincar, atriz circense. Claro, falta-lhe alguns apetrechos e enfeites pelo corpo, entretanto certamente possui grande habilidade. Mas o que aconteceu? O aracnídeo parou na metade do trajeto, aparentemente dispensando o exercício de tecer para me observar por alguns instantes. Também lê pensamentos? Aranhazinha audaciosa! Mostro-lhe a língua e ela sobe exasperadamente sua teia até o orifício de origem, quer abrigo das anormalidades do mundo. Dou uma gargalhada enquanto agito o inseticida. 

Era uma vez.

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"Eu sou cada segundo da minha vida, uma história presente." Interior, bem escondido no meio das árvores que fazem cócegas no céu. A ponte sobrevive arqueada sobre o riacho, de tijolos firmes nessa função de tornar travessias possíveis, de ser o vínculo das coisas naturalmente distantes. Uma pequena cachoeira de água límpida e gelada, sento-me nas pedras deixando os pés submersos balançando naquele movimento infinito da correnteza. Mário Quintana afirmava haver tristeza nos rios por não poderem parar, são contínuos, não retornam para os lugares por onde passam. Eu paro, retrocedo, relembro e revivo. Estou quieta, imóvel, o ar é mais leve e meus membros amolecem. Aqui eu cresci, aqui tive meu primeiro amor e chorei no quarto com a porta trancada quando ele acabou, fui castigada pelos meus pais e me escondi no mato até que a raiva passasse. Este lugar é meu templo e hoje sou mulher, e sou bonita, sei seduzir, convencer, trabalho e faço essas coisas normais e mesquinhas que o...

(A) Hora

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V ou tirar umas férias dos meus compromissos de ócio. Não escrevo mais por algum tempo, nem penso ou ajo para impressionar. Existem momentos exigindo o "mais ou menos" naquilo que deveria ser primordial, a fim de que uma segunda realidade fique em primeiro plano.  Se tiver que fazer algo na sua vida, faça por si e para si mesmo. Sim, há alguém avaliando o que e como faz. Dane-se. O prejuízo ou o benefício virá exclusivamente para sua caixa de correio. Faça o melhor. Toda a manhã eu desejo que meu dia termine sendo o mais excelente que eu puder viver, que cada conversa seja a mais fascinante e que cada sorriso seja o mais lindo e verdadeiro.  Quer me conquistar? Sorria. Dê ao seu sorriso proporções maiores que às suas reclamações, ainda que eu sempre queira ouvi-las. Entregue-se à sensação. Você sabe quais ruas eu passo, os locais onde paro, será difícil me encontrar? Chame e eu vou com pressa. Preciso descansar um pouco, tenho uma impressão concisa que estou desgasta...

Rato

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Chove agora, amanhã alaga e depois é sol na cara. Despido, inteligente e corrompido faço o tope como uma criança que ainda não aprendeu amarrar o próprio calçado . De ruim não passa, o além é descaso com a própria sorte. Homens e mulheres, respeito, amor, indecência, verdade e sempre a história fica pela metade, e sempre alguém interpreta errado e o Sempre é uma contingência de desocupados. Acordo e ligo o rádio, ensurdeço minha seriedade. Eu não sou réu, sou rato, mas se por pecados maiores não me mato, sobrevivo desolado o tempo da compreensão . Debruce em mim só a expectativa da mudança. A partir daqui não respondo ciente, pra que ficar perguntando? E sim, adoro biscoitos de amendoim.

Quem me habita?

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Minhas mãos são feitas disso que é carne. São nada. Posso ver através delas, juro que sim. Tentei perceber minha face com meus próprios olhos, seus ângulos e sombreamentos, a face material e não o reflexo no espelho do banheiro. Não pude. Não posso. Não tenho.