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Vou indo, Maria

Outra pausa. E ela continua a contar das crises no seu relacionamento embrionário natimorto, esperando que um pseudo médico pudesse entregar uma cura que nem mesmo a psicologia conjugal havia descoberto.  Uma coca zero e um bolo de doce de leite, diz. Para mim uma torta fria e um expresso pequeno. Uma pausa de uma garfada. E o que aconteceu que você me chamou hoje? Questiono logo já que não tenho predileção por problemas que não posso solucionar. Precisava conversar, precisava estar perto de um amigo. Ela havia ficado dois meses em Florianópolis e agora irrompeu a paz de meu casulo para contar seus desatinos, eu previa isso e já estava arrependido de ter vindo. Estou disposto a não ouvi-la, estou apto a dispor de sua ausência. Vou levantar e antes que a borra apareça no fundo da xícara, estarei na porta. Vou indo, Maria. Se ela não fosse dele também não seria minha, se ela não fosse uma pausa, seria uma consequência intensamente amigável.

Sakurá anã branca

O tempo de ser precoce reconhece o tempo de estar em si, se eu fosse uma árvore quanto tempo eu teria? Se podarem meus galhos e tirarem a casca do meu tronco, se esquecerem meu sol, minha água, meu vento, minha sombra, meu nome, pra onde correriam as minhas raízes fincadas no solo que me forneceram? Eu conviveria com pedras, suportaria o frio da noite e pausaria a vórtice dos meus ciclos, se eu fosse uma árvore quem seriam os meus inimigos? As formigas que me caminham, os pássaros que cagam? Ah, trata-se das flores? Então toma que são tuas, posso florir precoce porque a minha explosão ainda fascina. Se eu fosse uma árvore, de que tipo eu seria?

Sal

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Então vieste sem que eu entendesse, e explicaste o que sou. Não fossem os fatos, não fosse o clima outonal, as flores e os frutos cítricos da estação, estaríamos felizmente ilhados em nosso descabimento amoroso. Não fossem os outros, não fosse minha própria incapacidade de ferir o trópico de câncer com o traço do equador, se não fossem minhas longitudes, teríamos um lugar na esperança de sermos o que desejávamos ser. Agora assombram dúvidas que outrora sequer pareciam capazes de uma existência real, puseste uma pitada de sal e ardor na minha língua para que eu provasse prazer com amor e sentisse a ânsia de viver uma vontade pura e própria. Salve-me a terapia já que desde sempre tenho criado problemas por mim mesmo. Não preciso de aliados, já que não bastariam sugestões insolúveis quando teus olhos avançam os meus por através de minhas lentes sujas e de meus argumentos inválidos. Retornaste do teu exílio enquanto perdia minha identidade e razões de ser. Tuas garrafas de vin...

Licença poética.

Se essa semana não fosse santa, o que seria de nós? Se deturpassem a razão, os efeitos do chá, a calma e a euforia insatisfeita, onde estaríamos agora? Quem "compraram" tua paz, onde "perderam" tua verdade, onde "fugiram" tua saudade de ontem e repuseram tua história com ilusões à termo? Se fossemos nós, se fossemos ultrajantes de gastar nossa vida sem compasso, se descrêssemos as ordens de nossa seita imaginária e lavássemos o rito do amor com simplesmente a pureza do sentimento, será que estaríamos à salvo? Quem "questionaram" minha capacidade de viver ou "prenderam" minha sedução pelo ardor da descoberta? Eu "precisamos" de uma escolha que não denote nas suas entrelinhas o que minhas palavras não consentem dizer. Astrologicamente criaram explicações de comportamento, ensinaram ler os corpos, suas poses de poder e suas posturas de fracasso mental, mostraram o modus operandi de olhos que mentem e de bocas que sucumbem ...

Então acertei metade

  O elevador não iria saturar minhas gorduras, então alguns lances de escada e logo que chego em casa vou ao sofá, nem tão cansado, meio vadio e um tanto revolto do dia. Tiro os óculos, repouso-os sobre o braço do sofá marrom de dois lugares, o qual pode abrigar até quatro bundas, providencio de conectar o mundo a mim e tomar consciência das notícias que o dia conseguiu esconder. O tempo passa rápido, por isso nunca sei se vai dar tempo pra fazer tudo, só que hoje, hoje resolvi que eu queria ficar inútil, queria fazer nada, coçar minhas bolas, esquecer de tudo e só lembrar amanhã quando o despertador tocar – claro, isso se eu lembrar de ligar o despertador. Estar em qualquer lugar é escolha, liberdade é a maior valia, acho errado esse negócio de não poder escolher onde e como se quer levar a própria vida, porque a própria vida trata de fazer as escolhas se você não tomá-las pra si. Gosto desse negócio de imergir em situações malucas de pessoas desconhecidas todo dia. Ainda ...

ausência de calma e a polinização que de nada interessa ao texto

Quando essa febre termina, é pela cafeína que arruinou o sono ou pela chá que ferrou os planos de dor e nostalgia? Será que a gripe interrompeu o ciclo hormonal do universo e pólen das flores abnegou de fecundar para o fruto? Estou assistindo engenheiros e as nuvens de algodão passam pela fronte e tomam de mim qualquer indicação de sentido pra seguir: não procure bússola nos meus olhos que estou cansado de olhar adiante, assente-se por aí, tenha por perto o ouro do afeto e registre nos seus cadernos a data certa de cada fase da lua. Frequentemente tenho lembranças de que outrora paixões devassavam a puerícia, concluí que desperdício é insistir no passado e nessa ânsia de amanhã, método de viver ineficaz é abraçar o improvável, compensa mesmo é ter dois terços generosos de esbanjação na vida privada e um quarto de descrédito público para honrar as noites em que não dei cabo das minhas obrigações, a fim de escrever dois parágrafos curtos reclamando o que minhas sentenças poucos int...

Seleções

-   E há quem venha minguando sonhos fazendo de milonga, recanto acabrunhado de peão excomungado de toda sorte. Bagual maldito que se esconde de pinga, baile e grito, pediu ao destino um traço bem reto pra que dessa vida tenha por certo o que nem Deus tem por justo. Tenho pressa, mas tenho dom, e meu nome em cada pedaço de chão, tem glória e respeito que até lança faz curva. Não sou lá de linhagem domada, nem tenho dote à prenda escolhida, só as mãos calejadas da lida, e um, ou dois, projetos pra cumprir no regaço da vida: O João Miguel e a Maria Luiza.   -   Agenda aí que tenho tempo de sobra, porque já passei da hora mesmo. Por favor, escreva aí que gosto de coragem, mas gosto de covardes corajosos, porque os destemidos do ridículo não se desafiam nesse feito. Eu quero uma anotação, não sobre o que fiz, mas sobre minhas intenções, quero quadros abstratos, e duas esculturas de mulheres nuas com jarros em mãos, dos quais verte água o tempo tod...