Cristiano mora no segundo dos três andares daquele protótipo de prédio, e todo vizinho possui um cabo de vassoura como artigo de sobrevivência urbana. Cris tem um carrinho de rodinhas e quer brincar pelo espaço de sua casa, então se aproxima da parede e com os pés nela, flexiona as pernas para dar o impulso do passeio. Ele tem cor, diferente do cinza das pessoas sem brilho, cor que eu não tenho, mas pra mim tem tanta cor no mundo mesmo que não faz a menor diferença. O problema é que ninguém quer barulho, acho que essas pessoas todas tentam escutar aquilo que inutilmente seus interiores comunicam, mas não há diálogo e ai está todo o desencontro de personalidades, intelectuais conhecedores de cinco idiomas desconhecem a língua para tratar consigo mesmo. Dinâmicos e festejantes, Cris olha nos meus olhos e diz que aquele que nos vê agora não imagina nosso padecer passado. Foi o vizinho de cima que chegou a sua mãe e "ele vai ser um futuro bandido", ela chora, ajoelha e contrapõe aquela blasfêmia estúpida com a esperança de futuro. Por isso mesmo Cris trabalha digno agora, acorda cedo e não perde a hora, ainda lembra o episódio do qual ele aprendeu que a única coisa que não precisaria roubar ou pedir eram manifestações de discriminação ignorante. Cris sorri, resolve em si o ópio da madrugada nos vinte e tantos anos de uma marca que não dissipa.
Se fosse Morfeu
Então seria o caos, a completa imprevisibilidade dos fatos que ordenaria - posso dizer assim? - a forma como tudo ocorre. Qualquer explicação que a Física poderia prover seria inútil: a supremacia do casuísmo teria se tornado o motor dos fatos. A mim parece que esse grande globo terrestre tem suas motivações nos sentimentos, nas emoções e tudo que essa equação tem potencial de resultar. As guerras, as mortes, os nascimentos, as traições, a própria definição desses termos, tudo teria correlação intrínseca com a mágica que ocorre no corpo da nossa espécie quando o sentimento toma forma. Parece lógico pensar que o ego dos homens ocupa o espaço maior que seus corpos, esse espaço necessário para abrigar a expansão do eu é que acaba esbarrando em outros egos e o efeito em cadeia desse processo não poderia ser diferente do que uma pilha de argumentos que sempre pretendem justificar a nossa própria posição. De que maneira o herói salvaria o mundo? No silêncio do seu anonimato, cobrindo a face ...
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