Cristiano mora no segundo dos três andares daquele protótipo de prédio, e todo vizinho possui um cabo de vassoura como artigo de sobrevivência urbana. Cris tem um carrinho de rodinhas e quer brincar pelo espaço de sua casa, então se aproxima da parede e com os pés nela, flexiona as pernas para dar o impulso do passeio. Ele tem cor, diferente do cinza das pessoas sem brilho, cor que eu não tenho, mas pra mim tem tanta cor no mundo mesmo que não faz a menor diferença. O problema é que ninguém quer barulho, acho que essas pessoas todas tentam escutar aquilo que inutilmente seus interiores comunicam, mas não há diálogo e ai está todo o desencontro de personalidades, intelectuais conhecedores de cinco idiomas desconhecem a língua para tratar consigo mesmo. Dinâmicos e festejantes, Cris olha nos meus olhos e diz que aquele que nos vê agora não imagina nosso padecer passado. Foi o vizinho de cima que chegou a sua mãe e "ele vai ser um futuro bandido", ela chora, ajoelha e contrapõe aquela blasfêmia estúpida com a esperança de futuro. Por isso mesmo Cris trabalha digno agora, acorda cedo e não perde a hora, ainda lembra o episódio do qual ele aprendeu que a única coisa que não precisaria roubar ou pedir eram manifestações de discriminação ignorante. Cris sorri, resolve em si o ópio da madrugada nos vinte e tantos anos de uma marca que não dissipa.
UM eu NÓS
V ou tentar explicar isso, e essa será a primeira vez. Estou sozinho agora, mas não é sempre assim. Estou vendo o mundo pela lente redonda dos meus óculos, mas nem sempre é assim. Na minha adolescência lembro ter lido um livro do Paulo Coelho, no qual ele dizia que podemos ter mais almas gêmeas. Na implosão da morte e na eclosão da vida, o fluxo espiritual - que podemos chamar de alma, pode se dividir e dar sopro a mais de um ser. Não por acaso encontramos pessoas com as quais estabelecemos uma conexão intensa. Às vezes, quando minha respiração está tranquila e consigo imergir em um ambiente mental disruptivo, eu sinto. Sensações no intervalo de uma música, acompanhadas com um bem estar e uma alegria, que eu tentaria descrever como simples, uma alegria simples. Confesso que minha pele arrepia e meu corpo muda e excede, o mundo está calmo e o tempo está adequado à minha vida. No intervalo de uma música não há dor, nem solidão, nem dúvida, nem dinheiro, nem fome, nem miopia, nem ...
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