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"napoletana"

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Acordei e a vi pela janela na rua de paralelepípedos cinza, seus cabelos esvoaçavam ligeiramente enquanto já ia entrando no carro. Ainda de cuecas e rosto amassado, estiquei o lençol e ajeitei os travesseiros. Vesti as calças, um moletom e deixei a cafeteira exalando o cheiro de café enquanto buscava pães na venda da esquina. Bati a porta, desci e subi as escadas rangentes, depois catei um livro velho na estante, sentei-me na poltrona e o mantive fechado nas mãos, não desejava história alguma. Queria uma presença permanente, não o rastro do escapamento de um carro desaparecendo no horizonte, ainda tenho planos de ter um apartamento e não trabalhar, ser um vadio, artisticamente iludido de que minha esperança e vida é arte pura rumo da felicidade. Palavra e pincel, quadros e livros. Abriria a porta quando voltasses ao fim do dia, sentaríamos à cobertura desse prédio de uma pouco movimentada via tradicional italiana, e beberíamos do nosso afeto enquanto o sol desabava vagarosamente por...

Impróprio

Abriste as pernas e me engoliste com uma fome perversa da qual não desejei insaciar. Teus membros me abraçaram junto ao teu corpo com a força de todo prazer que o amor pode regar em suor. Atinei escrever na tua pele minha presença, cravando as unhas agressivamente ao longo das tuas costas, gemeste titubeando esbofetear-me, porém antes precisavas do meu beijo molhado para saudar teu corpo alvoroçado pelos gozosos vícios humanos.  Esqueceste do sincronismo dos movimentos, te perdeste do ritmo, descompassadamente golpeava-me, sim, pareciam golpes na ira expressa facialmente, uma ânsia, uma necessidade quase animal, me reviravas sem pragmatismo, conforme roteiro de improviso próprio. Sabíamos o final, claro, todos sabem como isso acaba, poucos sabem que muito se sabe dos fins, mas muito vale a carne marcada, a vela queimada na noite de quarta, fazer do meio o trajeto certeiro do ereto arqueiro.

"I don't speak english for you"

Já estava indo dormir, mas precisava escrever. Havia escovado os dentes, calculado quantas horas descansaria até acordar no dia seguinte, tinha tomado meu copo de água gelada e então lembrei que não poderia deixar para amanhã aquilo que ainda poderia ser feito hoje, mesmo que hoje já quase fosse amanhã. Sentado na minha cama com as pernas esticadas, as cobertas cederam espaço a alguns parágrafos que se fazem necessários.   Descobri que a família é nosso bem maior, por mais diferente que ela seja, por mais que transpareça imperfeições, você nunca vai querer estar longe dela e da certeza de ser acolhido sob qualquer circunstância. Entendo agora que amo profundamente meus pais, que vivo tão plenamente esse amor que vou poder fazer meus filhos se sentirem profundamente queridos por mim. Hoje eu já entendo de negócios, da fé, de bons perfumes, de tons de pele, entendo de música e de literatura, sou diagnosticado pelos olhos das pessoas como invasor da normalidade humana, tenho a...

amor imenso da minha vida infinita

"Eu me sinto superior contigo, não acima dos outros ou coisa do gênero, mas em um nível espiritual superior. Não é algo que provenha tão somente de ti isso, mas do fato de estarmos JUNTOS, entende?"
E se nós não pudéssemos nos ver, se por alguma razão ficássemos longe um do outro? Se deixássemos de nos olhar por anos, se alguma coisa levasse um de nós a outro continente? Se estivéssemos afastados em uma grande dor, e se fizéssemos escolhas erradas, e se nos desencontrássemos do próximo minuto pressagiado?
Aniversário é um por ano, bolo e aquela coisa toda, preciso estar menstruada? Colorado fez falta na pequena área. Bocejo enquanto o garçom me serve vinho pela segunda vez. Braços torneados e um sorriso torto no rosto, um perfeito idiota com um provável cérebro de ervilha, aliás, odeio ervilha, milho e essas coisas enlatadas que enfiam na minha comida. Vim para jantar, este não é meu restaurante predileto, eu não tenho um que seja, escolhi por fazer algo diferente e incrementar alguma emoção quando estiver contando no próximo dia útil aos colegas o que fiz na festa dos meus trinta e poucos muitos anos. Não precisava haver esse enjôo, mas grávida não estou, a menos que o espírito santo tenha abusado do meu corpo nas ultimas noites de sono que realmente foram ruins. Tudo bem, não estou dizendo que o espírito santo é ruim de cama, mas tenho sofrido com uma insônia persistente...veja bem o que já estou dizendo!
Cruzei as pernas e descansei a coluna no encosto da cadeira, deixei de lado meus livros. É engraçado que quando menino buscava livros pequenos com histórias atraentes, agora me vejo rodeado de obras com páginas infindas, vocabulário rebuscado, e, de certa forma, até me sinto atraído por esses títulos mais densos. Não vejo fantasmas, desconheço o rumo dessa encarnação, não toco banjo nem canto samba. É tão gostoso ser leigo de todo futuro, não saber onde as coisas findam ou por qual razão acontecem, eu ainda acredito que há um grande ensinamento em tudo isso que não posso entender e que ninguém consegue explicar. O ventilador faz um som estranho e logo serão cinco anos. Tudo surge e adormece com uma rapidez desproporcional ao tempo que suas conseqüências permanecem. Uma folha de palmeira fica bem na foto, quem sabe um lago, quem sabe uma nova cena pra essa história? Bobagem. O desapego é a mais nova tática de sobrevivência humana, talvez um reaparecimento dos ideários franceses que sur...