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- verso quente

prendeste a lingua nos dentes perdeste cabelo no pente só não perdes do ventre o desejo ardente de mim.

Clara Inocência Fagundes

Acusaram-te. Sequer pediram tua razão ou vontade, agora reprimida. Intumesceram teu sexo, regozijaram teus dias e prenderam-te solitária, por fim. O cárcere vigiado pela culpa é abrigo perpétuo dos  instintos inconsequêntes quiçá reparados pelo tempo. Transformaram teu afeto em peças  de memória longínqua, criaram agonia e rebelaram tua ira contra o mundo que  das tuas infelicidades mal sabia. Então, como quem supera os acidentes no relevo da vida, prosseguiste ungida de esperança posta à frente com vestido e tranças, disposta a tentativas e revanches a fim de tornar-se nova mulher ou para todo sempre criança.

"napoletana"

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Acordei e a vi pela janela na rua de paralelepípedos cinza, seus cabelos esvoaçavam ligeiramente enquanto já ia entrando no carro. Ainda de cuecas e rosto amassado, estiquei o lençol e ajeitei os travesseiros. Vesti as calças, um moletom e deixei a cafeteira exalando o cheiro de café enquanto buscava pães na venda da esquina. Bati a porta, desci e subi as escadas rangentes, depois catei um livro velho na estante, sentei-me na poltrona e o mantive fechado nas mãos, não desejava história alguma. Queria uma presença permanente, não o rastro do escapamento de um carro desaparecendo no horizonte, ainda tenho planos de ter um apartamento e não trabalhar, ser um vadio, artisticamente iludido de que minha esperança e vida é arte pura rumo da felicidade. Palavra e pincel, quadros e livros. Abriria a porta quando voltasses ao fim do dia, sentaríamos à cobertura desse prédio de uma pouco movimentada via tradicional italiana, e beberíamos do nosso afeto enquanto o sol desabava vagarosamente por...

Impróprio

Abriste as pernas e me engoliste com uma fome perversa da qual não desejei insaciar. Teus membros me abraçaram junto ao teu corpo com a força de todo prazer que o amor pode regar em suor. Atinei escrever na tua pele minha presença, cravando as unhas agressivamente ao longo das tuas costas, gemeste titubeando esbofetear-me, porém antes precisavas do meu beijo molhado para saudar teu corpo alvoroçado pelos gozosos vícios humanos.  Esqueceste do sincronismo dos movimentos, te perdeste do ritmo, descompassadamente golpeava-me, sim, pareciam golpes na ira expressa facialmente, uma ânsia, uma necessidade quase animal, me reviravas sem pragmatismo, conforme roteiro de improviso próprio. Sabíamos o final, claro, todos sabem como isso acaba, poucos sabem que muito se sabe dos fins, mas muito vale a carne marcada, a vela queimada na noite de quarta, fazer do meio o trajeto certeiro do ereto arqueiro.

"I don't speak english for you"

Já estava indo dormir, mas precisava escrever. Havia escovado os dentes, calculado quantas horas descansaria até acordar no dia seguinte, tinha tomado meu copo de água gelada e então lembrei que não poderia deixar para amanhã aquilo que ainda poderia ser feito hoje, mesmo que hoje já quase fosse amanhã. Sentado na minha cama com as pernas esticadas, as cobertas cederam espaço a alguns parágrafos que se fazem necessários.   Descobri que a família é nosso bem maior, por mais diferente que ela seja, por mais que transpareça imperfeições, você nunca vai querer estar longe dela e da certeza de ser acolhido sob qualquer circunstância. Entendo agora que amo profundamente meus pais, que vivo tão plenamente esse amor que vou poder fazer meus filhos se sentirem profundamente queridos por mim. Hoje eu já entendo de negócios, da fé, de bons perfumes, de tons de pele, entendo de música e de literatura, sou diagnosticado pelos olhos das pessoas como invasor da normalidade humana, tenho a...

amor imenso da minha vida infinita

"Eu me sinto superior contigo, não acima dos outros ou coisa do gênero, mas em um nível espiritual superior. Não é algo que provenha tão somente de ti isso, mas do fato de estarmos JUNTOS, entende?"
E se nós não pudéssemos nos ver, se por alguma razão ficássemos longe um do outro? Se deixássemos de nos olhar por anos, se alguma coisa levasse um de nós a outro continente? Se estivéssemos afastados em uma grande dor, e se fizéssemos escolhas erradas, e se nos desencontrássemos do próximo minuto pressagiado?